Policy Brief analisa a estrutura econômica do Iraque em 2013 e mostra como dependência do petróleo, desigualdades regionais e fragilidades distributivas já revelavam vulnerabilidades que seriam expostas pela crise e pelo conflito que se seguiram.
Compreender como uma economia funciona antes de um grande choque político ou militar pode ser tão importante quanto analisar seus efeitos posteriores. Um novo Policy Brief assinado por Eduardo A. Haddad, Inácio F. Araújo e Geoffrey J.D. Hewings mostra como a análise da estrutura econômica do Iraque antes da ascensão do ISIS ajuda a revelar vulnerabilidades profundas que moldaram a magnitude da crise que se seguiu.
Publicado pelo Policy Center for the New South, o estudo Before the Crisis: Lessons from Iraq’s Pre-ISIS Economy reconstrói detalhadamente a economia iraquiana em 2013, pouco antes do conflito e do colapso dos preços internacionais do petróleo. A partir da construção de uma Matriz de Contabilidade Social Multirregional, os autores mapeiam como renda, produção e consumo estavam interligados entre regiões, setores e grupos sociais naquele momento crítico da economia do país.
O retrato que emerge é o de uma economia altamente dependente do petróleo e marcada por fortes desigualdades regionais e distributivas. Em 2013, o petróleo representava quase metade do Produto Interno Bruto do país e mais de 90% de suas exportações, mas gerava menos de 2% dos empregos. A renda gerada pelo setor concentrava-se principalmente em Basra (principal região produtora) e em Bagdá, que atuava como o principal centro econômico e administrativo do país.
A análise também mostra que grande parte das regiões dependia de efeitos indiretos provenientes desses centros econômicos. Quando novas receitas do petróleo entravam na economia, seus impactos se propagavam sobretudo por meio do consumo das famílias e da demanda por serviços concentrados nas regiões mais ricas. Ao mesmo tempo, os ganhos eram distribuídos de forma desigual: capital, empresas e famílias de renda mais alta capturavam a maior parte dos benefícios, enquanto trabalhadores e famílias de baixa renda recebiam parcelas muito menores.
Essas características estruturais ajudaram a amplificar as fragilidades do país quando o choque político e econômico ocorreu. O estudo sugere que dependência excessiva de recursos naturais, desigualdades territoriais e mecanismos distributivos regressivos podem tornar economias particularmente vulneráveis a crises.
Embora o foco seja o caso iraquiano, as lições do estudo são mais amplas. Em um contexto internacional marcado por conflitos regionais, tensões geopolíticas e volatilidade nos mercados de energia, compreender as estruturas econômicas que precedem crises torna-se essencial para antecipar riscos e orientar políticas públicas mais resilientes.
O Policy Brief completo pode ser acessado em:
https://www.policycenter.ma/publications/crisis-lessons-iraqs-pre-isis-economy1