Uma década de pesquisa interdisciplinar — combinando economia espacial, arqueologia, geografia, história antiga e ciências de dados — publicada na Humanities and Social Sciences Communications (Nature Portfolio)
Um novo estudo do NEREUS publicado na Humanities and Social Sciences Communications (Nature Portfolio) oferece uma visão inédita sobre como a República Romana integrou seus vastos territórios por meio da circulação monetária. Com base em um extenso banco de dados georreferenciado de depósitos de moedas abrangendo 155 BC a 2 AC, a pesquisa mapeia a geografia econômica do Mediterrâneo antigo com ferramentas modernas de modelagem espacial, revelando que as moedas romanas seguiam a lógica do poder, da infraestrutura e da governança.
O estudo assinado pelos professores Eduardo A. Haddad e Inácio Araújo demonstra que a distribuição das moedas não era aleatória. Centros administrativos, zonas militares e entrepostos comerciais moldavam consistentemente os padrões de circulação. A infraestrutura urbana — cívica, econômica e religiosa — previa a densidade local de moedas, enquanto os agrupamentos espaciais coincidiam com as redes de transporte romanas, especialmente o sistema viário que conectava os confins da República. “O que sempre me fascinou foi a ideia de que as moedas não são apenas dinheiro, são marcadores”, explica o Prof. Haddad. “Cada depósito é um momento congelado da vida econômica. Ao mapear milhares desses momentos ao longo de dois séculos, podemos reconstruir o sistema de circulação monetária de uma economia antiga com uma precisão que simplesmente não era possível antes.”
Um dos achados mais notáveis é o declínio progressivo da distância como barreira à circulação monetária. Ao longo dos dois séculos cobertos pelo banco de dados, as moedas passaram a circular por distâncias cada vez maiores, um padrão que os autores interpretam como evidência de integração fiscal crescente e expansão da infraestrutura no mundo romano.
A pesquisa inova ao integrar quatro tradições disciplinares distintas: modelagem de interação espacial (da economia regional), frameworks de contabilidade social (da análise econômica), dados arqueológicos de infraestrutura e um banco de dados georreferenciado de depósitos de moedas republicanas. A combinação permite aplicar métodos quantitativos formais a evidências históricas antigas de uma forma raramente tentada. “Tratamos a economia romana como um economista regional trataria uma economia moderna — com modelos espaciais, análise de redes e dados”, diz o Prof. Haddad. “Os romanos não nos deixaram PIB nem estatísticas de comércio, mas nos deixaram moedas. E as moedas, como descobrimos, têm muito a dizer.”
As origens desta pesquisa remontam a 2014, quando o Prof. Haddad, reconhecido por seu trabalho em economia regional e urbana, participou de seminários organizados pelo Departamento de Clássicos da Universidade de Princeton durante um período sabático. O contato com a história econômica antiga plantou uma semente. “Este é um projeto que nasceu da paixão”, conta o Prof. Haddad. “Passei minha carreira estudando como as economias se organizam no espaço, como as regiões se conectam, como bens e pessoas se movem, como a infraestrutura molda a vida econômica. Em algum momento tornou-se impossível não fazer as mesmas perguntas sobre Roma. E quando Roma entra na vida de alguém, não sai mais.”
Entre 2016 e 2018, o Prof. Haddad cursou disciplinas de pós-graduação no MA in Ancient History of the Classical Mediterranean da Universidade de Leicester, na modalidade à distância. Foi no âmbito desse programa que a estrutura inicial do artigo foi desenvolvida como projeto final de um dos cursos. A pesquisa ficou arquivada por alguns anos antes de ser retomada, ampliada com novos dados e coautoria, e finalmente levada à publicação.
Além de sua contribuição à história econômica antiga, o estudo defende a aplicação de métodos espaciais formais a evidências históricas. Os autores argumentam que as ferramentas desenvolvidas na ciência regional podem iluminar processos econômicos em sociedades antigas com uma precisão e rigor que abordagens narrativas sozinhas não alcançam. “A República Romana foi, em muitos aspectos, o primeiro grande experimento de integração econômica em larga escala”, afirma o Prof. Haddad. “Entender como funcionou (e por que funcionou) não é apenas uma questão para classicistas. É uma questão para qualquer pessoa interessada em como economias, governança e infraestrutura interagem no espaço e no tempo.”
O artigo servirá de base para a Fellow Lecture a ser apresentada pelo Prof. Haddad no encontro anual do North American Regional Science Council (NARSC), em Filadélfia, em novembro de 2026. O Prof. Haddad é Fellow da Regional Science Association International (RSAI).
Detalhes da publicação
Título: “Economic footprints: mapping coin circulation and economic networks in ancient Rome”
Revista: Humanities and Social Sciences Communications (Nature Portfolio)
DOI: 10.1057/s41599-026-07815-7
Publicado: 9 de junho de 2026 | Acesso aberto
Link: https://www.nature.com/articles/s41599-026-07815-7
Financiamento: CNPq (processo 301684/2022-7) e FAPESP (processos 14/25030-2 e 19/00057-9)