Na Estação

Morar na Estação é atravessar a ponte todo dia pra chegar ao centro e ter o Panema como elo entre casa e mundo.

Morar na Estação é chamar Piraju de “cidade” e dizer que “vai descer” quando vai pro centro.

Morar na Estação é caminhar pelo calçamento de pedra carcomido da Avenida Dr. Simão e lembrar que faz mais de 30 anos que a calçada é a mesma e que houve um tempo em que aquilo era repleto de árvores.

Morar na Estação é esquecer o nome do supermercado e chama-lo então de “Gentil”, nome do antigo dono que, por décadas, grafou cartazes de promoções e atendeu, sozinho, no caixa.

Morar na Estação é ter pernas fortes de tanto subir e descer o escadão do cruzeiro. É saber onde fica o “cruzeirinho” e cada pé de goiaba e de uvaia da subida ou da descida.

Morar na Estação é se surpreender dia a dia com a quantidade de lotes à venda e casas em construção, pois o morador da Estação tem a memória bem viva de quando tudo aquilo era mato.

Morar na Estação é dar bom dia para a Dita gari, responder quem morreu para o Nenê Loco, comprar fruta do Vartinho, contratar o Prego pra cortar a grama do quintal.

Morar na Estação é se lembrar das cantorias do Totico, das festas juninas da igreja, ter ganhado frango no bingo e saber cantar todas as canções da trezena de Santo Antônio de cor.

Morar na Estação é morar na área de maior número de eleitores da cidade e mesmo assim não ter nenhum representante na câmara. É ter quadra abandonada e pichada, inúmeros pontos de descarte de lixo, vizinhos passando necessidades e pouquíssimas iniciativas populares de cidadania.  

Morar na Estação é nem sempre lembrar que o nome do bairro é “Tibiriçá do Paranapanema” e quase nunca saber que o “Tibiriçá” constitui homenagem a Jorge Tibiriçá, uma celebridade antiga da política do Estado de São Paulo, mas que, apesar do nome, de índio não tinha nada.

Morar na Estação é já ter visitado a capelinha de São Roque.

Morar na Estação é já ter sido benzido por alguma velha benzedeira. É ter um pé de arruda ou alguma erva medicinal no quintal ou pelo menos saber indicar quem tenha.

Artigo de jornal local, dia desses, ao nomear meia dúzia de velhinhos que partiram dessa pra melhor, dizia que a Estação estava “perdendo a sua essência” (sic). Talvez a declaração se deva à saudade e ao apreço da autora pelos falecidos do bairro ou ainda ao sentimento de que no passado tudo era melhor – e vai ver era mesmo – mas a tal da “essência” é a gente que faz no dia a dia.

Gostar das boas memórias da Estação antiga é fácil. Difícil é aceitar que o tempo voa e que a responsabilidade de deixar as crianças orgulhosas do bairro em que moramos já é nossa.

One thought on “Na Estação

  • 14 de junho de 2021 em 19:56
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    A quinta estação do ano é um Quadrado Perfeito!

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