Arca para o futuro
Em “A queda do céu – palavras de um xamã yanomami”, livro de Davi Kopenawa e Bruce Albert, descobrimos que esses indígenas não têm apego por objetos. Gostam de ganhar presentes e de presentear seus amigos, mas não acumulam tralhas que não podem carregar e nem tratam coisas como tesouros valiosos. Quando alguém da comunidade morre, o grupo queima os objetos do defunto nas cerimônias de despedida para que o falecido possa descansar sem deixar tantas memórias aos que ficam. De que vale chorar eternamente por quem partiu e não volta mais?
Tesouro valioso para os indígenas do livro é a natureza: as montanhas, as árvores, o céu, o solo, os animais, as águas…
Não pude deixar de lembrar dos yanomami enquanto observava a galera preparando documentos, fotos e tranqueiras variadas para trancar na Arca do Futuro, uma caixa que será lacrada nos próximos dias (ou acabou de ser) e será reaberta no longínquo 2050. A primeira versão desse projeto ocorreu em 2000. A arca ficou 25 anos exposta no quintal da prefeitura, à vista de todos os transeuntes da Rua Carlos de Campos, e foi aberta recentemente, trazendo à tona tudo que uma legião de pessoas depositou ali na virada do século, no distante ano de 2000, que já cheira a mofo e se decompõe a olhos vistos.
Um colega do primário me lembrou, no grupo da turma no WhatsApp, que nossa turminha escreveu umas redações para a arca velha, de 2000. Que constrangimento enorme! Por que adultos de 35, sofredores de todas as pragas da sociedade moderna, a quem o mundo prometeu tudo e não deu nada, iriam querer lembrar do que pensavam ou sentiam aos dez aninhos?
Assim como as águas de um rio sempre se renovam, nossas ideias também se alteram. Obrigar criancinhas de 10 anos a escrever cartas que serão expostas para uma multidão depois de 25 anos (depois de criar juízo e alguma timidez) é mais que constrangedor: é cruel.
O que não cabe na memória não precisa ser arquivado para tempo nenhum – os museus que façam o serviço de guardar o que merece ser guardado para a memória dos homens de uma sociedade acumuladora.
A despeito de caixas lacradas, cartas, fotos e coisas velhas, nossa principal arca para o futuro deveria ser plantar árvores e a eterna luta por igualdade social. Quem sabe assim o mundo esteja melhorzinho em 2050.
* Naomi Corcovia é jornalista e ativista ambiental.
