A chave do tempo

O pai guardou os relógios no baú da oficina e trancou com chave. Ainda assim, eu ouvia os escravos do tempo cantando pelo vão da fechadura.
Um coral de cânticos jorrava noite adentro na cachoeira das horas.
As engrenagens ainda estavam na flor da idade e rodavam seus rubis com a força de uma musculatura bem lubrificada.
E assim a minha vida passou.
Quando o pai se foi, levou a chave, ou guardou em esconderijo tão bem feito que até hoje não sei.
Ou melhor, não sabia.
Sim, foi preciso chegar o meu neto, com a perspicácia da infância, para pedir meu colo na altura do relógio na parede.
– Vovô, quero ouvir o Cuco!
E puxou a corrente de aço, trazendo para fora um pássaro de madeira com a chave no bico.

* Carlos Alberto Muzille é músico, escritor e ativista ambiental.