Um professor
É sempre assim, depois que a mãe falece, a casa fica em silêncio, um silêncio de abandono, um silêncio de desprezo, e aquele animal de mandíbulas afiadas no canto da sala até o filho esquece. O filho, ainda que menino e homem, desaparece.
O que seria normal, o que seria natural, o desprezo da menina mulher, todos haveriam de concordar, pois sabe-se de longa data que ela, a filha, desconhece a dor desse animal que, por anos, sustentou o lar. Afinal, quem haveria de lembrar?
O vizinho?
Sim, dizem que o vizinho foi convidado por ele para repartir a ceia de natal. Uma ceia substancial de frutas secas e guisados de leitoas, até vinho fresco ele ofereceu, mesmo assim ninguém compareceu. Soube-se por meio da cuidadora que o animal alimentou-se pouco, sem a presença da menina mulher e do menino homem.
Compreensível. qual fome haveria de existir? Compreensível. Sobrou à mesa todas as comendas entregues pelo supermercado, dentre elas iguarias sofisticadas.
E o animal, esquecido, mesmo assim não derramou nenhuma lágrima. Alimentou-se apenas de uma tristeza seca, daquela solidão sólida de professor aposentado.
Fosse a esposa mãe ainda vivente, todos estariam sentados à mesa, a casa enfeitada de árvores natalinas, a gritaria inocente de netos e bisnetos correndo pelos aposentos montados em sua bengala.
Upa upa cavalinho!
Mas agora cadê? Cadê aquela multidão de gritos e risadas? Cadê a criançada? Cadê a fome?
Nem a alegria rala do vizinho compareceu.
* Carlos Alberto Muzille é escritor e ativista ambiental e cultural
