Backstab
Eu me rastejo com mil lanças perfuradas nas costas, e os pés amarrados a pesados grilhões que dificultam o meu tortuoso caminho até o fim do pesadelo. São resultados das escolhas e decisões já feitas. A dor e a agonia, os pés a carne viva, o sangue seco sobre as feridas, as pegadas que numa perspectiva estão mais próximas do início do que do fim de tudo isso. Todas as noites um novo golpe, sem saber de onde, sem saber por quem ou por quê.
Lembro-me da primeira perfuração como se fosse ontem, na verdade, a equivocada escolha de abandonar a si mesmo e acreditar numa maldita falsa verdade. Afoguei meus anseios nas drogas urbanas e no prazer do esquecimento do amor, cada maço de cigarro, cada carreira de cocaína, as ilusões despedaçaram como castelos de areia levados pela maré no fim das tardes. A primeira noite a gente nunca esquece, em um pesadelo senti as pernas presas e no horizonte o infame desejo ancestral de ser livre, de alcançar a divina felicidade. Eram só alguns passos, eu ainda conseguia ficar de pé, entretanto, sem aviso e em grande velocidade, senti meu corpo chicoteando para frente e caindo ao chão, e em um grito de agonia quebrando o silêncio enluarado daquele lugar desolado, senti, atravessando o meio das minhas costas uma enorme lança negra, inalcançável pelas mãos.
O sangue jorrou por minha boca enquanto tentava manter a respiração, a dor intensa me impedia de chorar, demorei-me a entender que era um sonho, pois não acordei com o impacto, aquilo deveria ter me matado e com esforço procurei tentar me libertar das correntes ao desespero, infelizmente não havia nenhuma possibilidade ao não ser tentar seguir em frente.
Acordei do pesadelo de alguma forma, ofegante e cansado, a cama estava encharcada de suor. Era uma manhã fria, enrolei uma nota velha de um dólar, uma lembrança dada por alguém que não me recordo e fiz uma carreira de pó branco na mesa de cabeceira, mal feita, apenas para me recobrar a consciência. Minha companheira já havia levantado e feito o café, com conhaque que supria a falta de açúcar e me pediu para colocar uma carreira do pó para ela também. Num estalo de raiva e inconsciente discutimos e a mandei embora, e essa foi mais uma das escolhas que acreditava estar certo. Puta, mentirosa e manipuladora, as condições já eram claras para mim, ou pelo menos achava isso. As ilusões de um bom dia, mesmo que frio, me fizeram levantar e beber o litro de café todo, e logo mais uma dose daquilo que me tirava do inferno ao paraíso. E a noite, após doses e doses, álcool, drogas e cigarros me vi novamente preso nos grilhões, com a lança presa no meio das costas, ainda ereto de frente ao caminho que precisava ser trilhado, o sangue seco da noite anterior estava ali. Não havia dado um passo, não consegui nem ao menos arrastar aquela enorme bola de chumbo que me prendia. E novamente de surpresa o impacto atingiu minhas costas, na mesma intensidade e a dor, assim como a outra, era intensa. Dessa vez não houve o chicotear do corpo, uma das pernas fraquejou e fiquei de joelhos, o sangue escorreu da boca e das narinas, gemi de agonia, mas não gritei. Com muito esforço procurei arrastar os grilhões puxando perna por perna.
Todavia que era inútil e nenhum progresso tinha sido feito. Nenhum milímetro havia se movido e a divina felicidade, a recompensa parecia estar mais distante do horizonte, e os ventos açoitavam meu corpo pelos flancos e cada vez que esse maldito pesadelo voltava, ficava mais difícil resistir.
Os dias foram passando e todas as noites uma lança atingia minha retaguarda, a dor foi se tornando parte, o terreno se tornava cada vez mais ensanguentado, as correntes iam corroendo minhas pernas e as feridas gangrenavam como árvores apodrecendo. Eram duzentas, trezentas, quinhentas lanças negras me transformando em uma espécie de porco-espinho. Depois de um certo tempo só me restava rastejar com meus braços, afogando no meu próprio sangue e lágrimas daquelas terríveis noites que se repetiam por centenas de dias, por dezenas de meses. As unhas das mãos haviam sido deixadas na terra úmida junto com a carne dos dedos. E mesmo deitado ao chão, as lanças não paravam. Em contrapartida, pelo menos um metro tinha sido percorrido desde o começo, porém, o horizonte belo já havia desaparecido de vista a muito tempo.
Mil lanças e contando, até que finalmente não haverá restos para atingir.
* Pasqualin é escritor e ativista cultural
