Pássaro menino
Céu cinza chão de lama, guarda-chuva todo torto na mão
Goteira marcando o tempo, coração batendo fora do tom
No fio torto da esquina, um desenho vivo me olhou
Asas molhadas tremendo, como se o frio fosse só meuPássaro na chuva me encara pergunta quem é que vai voar primeiro
Pássaro na chuva tão frágil tão puro caiu do céu dentro do meu peito inteiroVento arrasta folha e culpa, me aproximo devagar com calor
Te ofereço meu casaco, ele aceita só ficando onde eu estou
Relâmpago corta o silencio, seu canto falha mas saiu
Parece até que ele entende, toda saudade que em mim caiuSe eu te levo pra casa, ou te devolvo pro ar
Será que o amor que te guarda, também precisa soltar?
Talvez a gente se cure, só dividindo esse abrigo
Você molhado por fora, eu encharcado comigoQuando a garoa sossega, você sacode o temor
Abre as asas vai embora, me deixando preso em tua cor
PS: poema que virou canção
Carlos Alberto Muzille é escritor e ativista ambiental e cultural
