Texto da minha filha mãe

“Foto minha mãe grávida” (arquivo do autor)

Não sou uma. Minha existência não é uma linha reta. Sou tantas que às vezes me perco de mim para me encontrar no círculo. Sou nossa, sou delas, sou da terra que cuida e é cuidada. Minha pele não termina em mim; ela se funde na pelagem das outras, nas mães-lobas que se misturam comigo em mutirão, no riso que corta o cansaço e no axé que sustenta o corpo quando a fé é a única bússola em alto-mar. Sou composta de fatias de tempo: o tempo da minha mãe que ainda mora nos meus gestos, das avós-anciãs que benzeram meu caminho sem que eu soubesse, o tempo presente, esse agora-instante onde meu filho me olha e me descobre outra. Ele, a parte de mim que resolveu caminhar fora do meu corpo. Ele, esse ser que se reinventa e me obriga a quebrar os espelhos da onipotência. Que alívio é não saber tudo, minha intuição falha, filho, mas meu colo é certo. Ser mãe é o maior exercício de alteridade. É se apaixonar pelo novo todo dia, enquanto se despede do que foram ontem. Minha matéria mãe também é feita de festa e de luto, de cervejota gelada com as amigas e de silêncio sagrado diante do congá. Sou a mãe separada que aprendeu que o amor não é uma gaveta fechada, mas uma andança. Uma transversalidade de sonhos dividida com outras mulheres, que também são filhas, que também desconhecem a rota, mas que caminham. Somos o feminismo que não se escreve apenas em livros, mas que se gesta na cozinha, na curimba, na política que ocupa o território e no riso desbragado que é nossa maior resistência. Olho pro Be e vejo frações de mundos que ainda não entendo. Minha desacomodação interior expulsa para fora de mim, partes que agora têm pernas e correm. Sou terra. Sou filha. Sou a ancestralidade que não ficou para trás, mas que caminha ao meu lado, rindo da minha tentativa de ser exata. Nada é exato. Tudo é relação. Sou o que me compõe: a fé que me move, a festa que me cura e o amor que me desintegra para me montar de novo, mais forte, mais bicho, mais livre. Matéria bruta. Mães e filhas. Misturadas no fluxo da vida que não pede licença para ser imensa. Vem comigo, Be, deixar que a vida entre, amigos fiquem, a festa cure e o espírito se expanda até caber o universo inteiro no nosso abraço.

 

* Carlos Alberto Muzille é escritor e ativista ambiental e cultural