ISSN 2359-5191

30/03/2016 - Ano: 49 - Edição Nº: 28 - Saúde - Instituto de Química
Terapia fotodinâmica é promissora no tratamento de tumor na mama
Por ser capaz de matar seletivamente as células, tratamento aparece como opção nos casos mais graves da doença
Para prevenção da doença, mulheres entre 50 e 69 devem realizar mamografia a cada dois anos. Crédito: reprodução internet

O câncer de mama apresenta-se como um dos maiores problemas de saúde pública no mundo e as estratégias de tratamento nem sempre são eficientes e comprometem a qualidade de vida das pacientes. Com o objetivo de otimizar o tratamento de tumores mamários mais metastáticos (TNBC, sigla em inglês), uma pesquisa desenvolvida no Instituto de Química (IQ) da USP, encabeçada pela professora doutora Letícia Labríola, em colaboração com outros professores do departamento de Bioquímica, estuda a aplicação da terapia fotodinâmica (PDT, sigla em inglês) no extermínio seletivo de células de tumores mamários humanos com o uso do “azul de metileno”. Os resultados obtidos até o momento têm se mostrado promissores na seletiva indução de morte nas células tumorais usando PDT. Mais estudos estão sendo realizados no intuito de entender como essa terapia age sobre as células e o porquê de as causar a morte.

Os participantes da terapia

A PDT (photodynamic therapy) requer a participação de três fatores: luz (em um comprimento de onda específico), um composto químico, fotossensibilizador (que reaja com o oxigênio e com a própria luz), e o oxigênio. Com isso, ocorrem reações dentro das células, que formam espécies reativas de oxigênio (ROS), as quais induzirão a morte nas células de tumor. O composto químico utilizado é o azul de metileno - substância já conhecida na medicina, usada como fungicida ou antimalárico, por exemplo-, um fotossensibilizador que tem a capacidade de formar oxigênio reativo dentro da célula.

O grupo de pesquisadores demonstrou que a MB-PDT (Methylene blue photodynamic therapy) tem grande potencial de ação em eliminar, seletivamente, células tumorais de mama com diferentes propriedades invasivas. O fenômeno afeta uma quantidade quase ínfima de células normais e saudáveis do tecido, tanto no modelo de cultivo das células em monocamada como no cultivo tridimensional. Assim, na forma de esferoides, as características bioquímicas e morfológicas das células são restabelecidas, simulando seu equivalente ambiente tumoral in vivo. Para o tipo mais agressivo e metastático - no qual há formação de tumores em outros órgãos -, não existe ainda uma terapia dirigida. Normalmente, ele é tratado com um quimioterápico, como a cisplatina ou a doxorrubicina, além da cirurgia. O problema desse tratamento é que ele afeta também as células normais, acabando por comprometer a saúde do paciente.  

Da cirurgia às terapias

Para o tratamento de tumores mamários, os procedimentos mais comuns são: a mastectomia, cirurgia de remoção do tumor; radioterapia; e quimioterapia, podendo ser usados conjuntamente em uma mesma paciente. Além disso, podem ser feitas a cirurgia conservadora com radioterapia intra-operatória (IORT), a hormonioterapia - válido somente nos casos em que os tumores ainda apresentam os receptores hormonais - e a imunoterapia (fonte: Fundação Laço Rosa). No caso da terapia fotodinâmica, o procedimento seguiria os seguintes passos: a paciente diagnosticada seria encaminhada para a cirurgia de remoção do tumor; durante a operação, após a retirada da massa tumoral, o azul de metileno seria aplicado diretamente no tecido mamário; em seguida, o tecido contendo o fotossensibilizador seria irradiado com luz visível, por um período de 15 minutos. Por fim, a incisão seria fechada, e a cirurgia, finalizada.

Com isso, os índices de reincidência do tumor e de metástases diminuiriam, já que as células tumorais seriam, em tese, eliminadas de uma forma mais efetiva.

Morte seletiva

Segundo a pesquisadora Letícia Labríola, “Nossos resultados mostram que o menor efeito sobre as células não tumorais não está relacionado à menor concentração intracelular do fotossensibilizador ou à menor capacidade de geração de dano oxidativo, mas sim com a capacidade intrínseca de cada célula em lidar com este dano”.

Ela completa que: “Pesquisamos os mecanismos de morte que são induzidos pelo tratamento, e, depois de descartarmos a apoptose e autofagia, nossor resultados indicam que os mecanismos envolvidos seriam formas de necrose regulada como a permeabilização lisossomal e a necroptose ”. A primeira se refere ao rompimento das membranas do lisossomo, o que libera substãncias digestivas na célula; a segunda é uma forma regulada de necrose, ou morte inflamatória da célula.

Desenvolvendo um modelo

As próximas etapas da pesquisa visam a desenvolver um modelo pré-clínico in vivo, em camundongos. A ideia é utilizar dois grupos de camundongos imunossuprimidos, nos quais serão inoculadas células humanas de tumores mamários marcadas. Essas células serão injetadas nas mamas dos camundongos para promover o crescimento do tumor.

Após o tumor atingir um tamanho determinado, será realizado o procedimento com o PDT (operação seguida do tratamento com  luz  e o fotossensibilizador) em um grupo de animais. O outro grupo será tratado apenas com a cirurgia. Será avaliado se existem diferenças significativas no tempo de reincidência do tumor. Finalmente, será verificando também se o uso da terapia modifica o aparecimento de metástases em forma significativa.

A partir dos resultados obtidos, poderão ser desenhados ensaios mais completos visando à sua aplicação clínica.

A pesquisadora finaliza, dizendo que: “O conjunto de resultado obtido até o momento demonstra o potencial da terapia fotodinâmica com azul de metileno para o tratamento do câncer de mama e pode-se concluir que múltiplas vias de morte são acionadas após a MB-PDT, o que é uma característica desejável em uma terapia alternativa para o tratamento do câncer de uma forma geral, uma vez que ampliam-se as possibilidades de indução de morte em tumores com diferentes mecanismos de resistência”.


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