ISSN 2359-5191

19/09/2011 - Ano: 44 - Edição Nº: 86 - Ciência e Tecnologia - Instituto de Biociências
Pesquisa da USP ainda tem impacto reduzido
Apesar de ser considerado o melhor centro de pesquisa da América Latina, a Universidade de São Paulo ainda apresenta baixa relevância no panorama da pesquisa ao redor do mundo

São Paulo (AUN - USP) - Nem só do ensino vive a Universidade. A atividade de pesquisa é uma frente fundamental para a instituição, e é bastante significativa no caso da Universidade de São Paulo (USP), responsável por 23% da produção científica do Brasil. Apesar disso, a Universidade ainda forma um número de doutores e pós-doutores abaixo do ideal e precisa se focar na melhoria da qualidade das pesquisas realizadas.

Nos decorrer dos últimos anos, a pesquisa brasileira teve um aumento de quantidade significativo, mas o aspecto qualitativo foi menos expressivo. O indicador utilizado para medir a qualidade da pesquisa é o número de citações, ou seja, quando uma pesquisa brasileira é citada no exterior. Apesar das publicações científicas serem mais numerosas no país, as citações não acompanharam o crescimento, o que demonstra que a pesquisa feita no Brasil ainda tem impacto reduzido mundialmente. “Analisando a produção científica do Brasil e da China entre os anos 2000 e 2009, vemos que nossas áreas fortes são completamente diferentes. Aqui o campo em que mais se publica é a medicina e lá, a engenharia”, afirmou Marco Antônio Zago, Pró-Reitor de Pesquisa da USP, em palestra no Instituto de Biociências (IB-USP). “O Brasil está caminhando no sentido inverso. A formação de doutores em áreas de medicina, biologia e áreas exatas como engenharia estão diminuindo. Já nas ciências humanas a quantidade é maior”.

Na opinião do professor, o Brasil deveria formar anualmente três vezes mais doutores do que a média daqueles que se formam hoje em dia. “O que o Brasil conseguiu é um esforço impressionante, algo que não foi feito em nenhum país da América Latina, mas é uma ilusão achar que nós estamos em uma posição privilegiada, porque não estamos”, afirma. Para aumentar esse número não basta triplicar a quantidade de vagas disponíveis na pós-graduação. “É preciso investir em pesquisa, pois não existe pós-graduação sem pesquisa de qualidade”, defende Zago. O caminho adotado pela Universidade é focar-se no doutorado, uma vez que não é viável ampliar todas as áreas de estudo simultaneamente. “Não que o mestrado não seja importante, mas outras faculdades podem focar nele”.

Além da ampliação qualitativa e quantitativa, o grande desafio da Universidade em relação à pesquisa é melhorar sua relação com o setor produtivo. “Esperamos que pelo menos dois terços das pessoas formadas na pós-graduação vão trabalhar no setor produtivo ou no governo, ou seja, fora da Universidade. É preciso mostrar aos nossos alunos as oportunidades, pois isso também vai favorecer o desenvolvimento do setor produtivo”. Tal preocupação com a transferência de conhecimento e inovação foi o ponto de partida para a adoção de uma série de medidas. Uma delas foi a criação da Agência USP de Inovação, que tem como objetivo estimular parcerias entre a Universidade e o setor empresarial, buscando resultados para a sociedade. “O número de patentes depositadas pela USP aumentou expressivamente depois da Agência . Hoje somos a Universidade brasileira que mais registra patentes”. Zago também adiantou que a partir do ano que vem uma disciplina de empreendedorismo estará disponível para todos os alunos.

O pós-doutorado
A quantidade de pós-doutorado na Universidade também está abaixo do que deveria. Em média, há 0,4 pós-doutorandos para cada doutorado defendido. Em universidades estadunidenses esse valor é de 1,2.

Paradoxalmente,“estão sobrando bolsas de pós-doutorado”, afirma o pró-reitor de pesquisa. Para ele, a causa da limitação de pós-doutores é a falta de pessoas que se interessem pela carreira. “As pessoas que terminam a pós-graduação têm que entender que o pós-doutorado é uma opção semelhante a um emprego. Para isso, precisamos que o pagamento seja de qualidade. As bolsas de hoje são razoáveis, mas precisam de outros benefícios para serem atrativas. Creio que o mais importante é o seguro saúde”, afirma.

No entanto, são se pode atribuir obrigações e direitos trabalhistas a um pós-doutorando, pois para isso é necessária a existência de um empregador, algo que a Fapesp e outros órgãos do gênero não podem ser. “Nós estamos fazendo um esforço para resolver esse problema, porque temos consciência de sua importância. Algo que pode ser resolvido mais facilmente é a questão do limite de tempo. Acho que ele não precisa existir. Por que uma pessoa que faz um pós-doutorado de cinco anos e é bem sucedida não pode fazer mais um, ou mais alguns? Assim cria-se, de certa forma, uma carreira de pesquisador, sem ter esse nome. Mas essa carreira será mantida com bolsa, que é diferente de um emprego fixo”.

Mudança
O modelo de organização de pesquisa na Universidade mudou muito da década 70 até os dias de hoje. De acordo com Zago, a pesquisa costumava ser limitada a um departamento ou grupo único, a linha de pesquisa era “herdada” de grupos anteriores, tinha impacto global reduzido e o único resultado visado era a publicação.

Atualmente, a pesquisa é centrada em problemas, os temas são de importância estratégica e competitividade global e ela não mais se restringe a limites departamentais. Além de publicações, esse novo tipo de pesquisa gera patentes, ajuda na formulação de políticas públicas, na disseminação de informações e na formação de recursos humanos.

Não faltam recursos
“A USP é extremamente privilegiada no que diz respeito a recursos para pesquisa”, ressalta o pró-reitor. Quase 10% do valor anual arrecadado pelo Estado de São Paulo com o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) é direcionado a suas três universidades públicas (USP, Unesp e Unicamp). A USP também recebe anualmente cerca de R$ 310 milhões da Fapesp e R$ 153 milhões do CNPq em bolsas de pesquisa. A própria Universidade aplica cerca de R$ 1,4 bilhão por ano na área. “Nossa produção científica é a melhor do Brasil e da América Latina, mas quando nos comparamos com as universidades de segunda e terceira linha no panorama mundial ainda estamos muito mal. Nossa desculpa não pode ser falta de verba, nós precisamos nos esforçar para usar melhor os recursos que temos disponíveis”, diz Zago.

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